Vale de Cambra

Vale de Cambra 1957

por J. Correia

Não são muitas as vezes, mas algumas há em que o escritor não encontra suficientes palavras para descrever o que vê.

Então fala o espírito maravilhado pelos óculos da sua retina: os olhos, que num êxtase místico pousam em tudo, incrédulos de uma beleza que nunca supuseram poder existir na terra.

É o caso de Vale de Cambra. Vale enorme, florão gigantesco, não sabemos como a Natureza algumas vezes pode ter tido tão sublime capricho de criação.

Ai!… este vale, quem nos dera poder levá-lo na mão, pô-lo na alma como ermida da devoção que temos pelo belo, tê-lo onde o nosso olhar se pudesse pôr todos os dias, como o sol no poente!

Ai!… este vale, quem não desejaria ser coração a pulsar desordenadamente no seu corpo de verdura e não morrer nunca, ser eterno como a lei que o criou!

Vem, poeta, deixa a tua tebaida de cismador solitário e contempla, deste alto de Baralhas onde nos encontramos, toda a vastidão imensa desta bacia que um outro poeta sonhou, que um outro poeta fez.

Só tu na verdade és capaz de ter um peito onde caiba tanto encanto, onde caiba, no teu vale de inspiração, este Vale de Cambra.

Passar através deste alto, de olhar despreocupado, sem sentir, sem viver até, a fascinação que vem lá do fundo, sem escutar os acordes da sua sinfonia feita de mil verdes, é como ser crente sem saber rezar, é como um rezar sem ser de crença.

Ajoelha, viajante, ajoelha se passares aqui, como diante do templo que alguém fez para a tua fé.

Ajoelha e reza o credo dos sonhadores, dos que desejariam que o mundo fosse realmente um templo com versos por orações, com o chilrear das aves como salmos, com altares, com muitos altares, mas onde cada altar fosse um vale e o altar-mor este Vale de Cambra.

Ajoelha, escuta!

Ajoelha porque só de joelhos se pode entrar num reino de beleza como este.