O culto da Sagrada Família em Viadal

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Manuel de Almeida
1. Introdução.

Vem de longe a nossa ligação às práticas religiosas cristãs em geral e da Sagrada Família, em particular. Culto este, que supomos terá sido introduzido no lugar de Viadal aí pelos inícios da década de cinquenta do século XX, tempo em que nascemos.

Morava, nessa altura, no lugar de Cima, uma senhora, já idosa, chamada de Custódia (1), mas conhecida de toda a gente por “tia Cardosa”. Visitava-a, com regularidade, uma sua amiga ou parente, dos lados de Arouca, que dava pelo nome de Florinda. Eram muito devotas, sobretudo a Custódia.

A sua casa era térrea, de paredes baixas e já coberta, tanto quanto nos lembramos, com telha nacional. No mesmo local construiu, anos mais tarde, o tio Custódio Quintal, uma casa nova, em pedra e onde criou uma vasta descendência, espalhada pela Europa, a quem saudamos.

Circulava, então, pelas diversas casas de Viadal e Tabaçó um pequeno oratório com a Sagrada Família que permanecia, com regularidade, na residência das referidas aldeãs. Querendo companhia para a oração, vinham-nos buscar, ainda pela mão, e lá rezávamos em conjunto.

Aqui, devemos confessar, havia da nossa parte algum interesse pela passagem da Sagrada Família pela morada das tias Cardosas. Com efeito, finda a prece, éramos presenteados com guloseimas, nomeadamente figos secos, bolachas e/ou rebuçados.

Como nos dias que correm ainda se mantém o dito culto em Viadal e demais aldeias da freguesia de Cepelos, em terras de Cambra; quisemos saber mais sobre este rito, nomeadamente as suas origens. Uma tal pesquisa levou-nos inclusive a visitar Barcelona, onde nos esperava, a este propósito, uma importante surpresa. Vejamos o que descobrimos.

2. Um pouco de história.

Mas donde vem esta prática religiosa?

Pode dizer-se que o culto à Sagrada Família, consta dos primórdios da Igreja. É, contudo, no século XIX que ganha especial visibilidade. Duas associações de famílias cristãs consagradas à Sagrada Família, estão na base de um amplo movimento dessa devoção, em diversas dioceses de França, Espanha, Itália e Portugal: uma em Liége, dos Padres Redentoristas, (1845) aprovada pelo Papa Gregório XVI e outra em Lion, fundada por um Jesuíta, Padre Francisco Filipe Francoz, (1861) aprovada por Pio IX.

A partir de então, o culto vai-se consolidando, com a instituição em 1893 da festa litúrgica da Sagrada Família, que Bento XV em 1921 estendeu à Igreja universal.

Já a visita, da Sagrada Família (2) aos Lares, visa:

a) – Despertar nas famílias o mistério do amor revelado na Família de Nazaré;

b) – Estimular nas famílias a admiração e contemplação do modelo por excelência de vida familiar, baseada no amor recíproco, na oração, no diálogo e na partilha;

c) – Ajudar cada família a descobrir-se como o lugar que dá continuidade ao mistério da incarnação do Verbo de Deus e do mistério da Salvação;

d) – Proporcionar às famílias a reflexão da Palavra de Deus, para iluminar a sua vida pessoal e familiar;

e) – Incentivar as famílias à imitação das virtudes da Sagrada Família;

f) – Despertar nas famílias o sentido de serem “igrejas domésticas”;

3. A liturgia da Sagrada Família em Viadal.

Tendente a cimentar tais princípios, instituiu-se em Viadal uma rotina, em que um oratório em madeira – com cerca de 50 cm de altura – facilmente transportável, tendo dentro as imagens de Nossa Senhora, S. José e do Menino Jesus percorre todas as casas da aldeia; permanecendo 24 horas em cada lar. A entrega do mesmo é feita, geralmente, ao escurecer; de modo a que a família de acolhimento possa fazer as suas orações da noite, junto ao mesmo.

O oratório ocupa sempre um lugar de destaque na nova morada. Colocado em local próprio, tipo altar, ou em cima de uma mesa, coberta com uma toalha branca, preferencialmente de linho. Aí fica, todo o tempo, na sala ou divisão principal da habitação. Na sua frente, a alumiar, tem sempre uma lamparina a azeite. (3)

Tem ainda o referido nicho em madeira uma ranhura e, por baixo das imagens, uma gaveta destinada a receber os donativos em dinheiro que os agregados familiares acharem por bem doar. Apurado, no final do ano, o montante (4) pela zeladora, que detém a chave, é mandada celebrar missa pelas almas dos familiares dos diversos vizinhos já falecidos.

Inicialmente, o oratório era comum aos lugares de Viadal e Tabaçó. Hoje, esta última povoação possui também um que circula, pelas casas dos diferentes habitantes, nos moldes descritos.

4. A liturgia na freguesia de Cepelos.

A festa da Sagrada Família é no domingo seguinte ao dia de Natal; tendo a de 2008 calhado a 28 de Dezembro e toma, na freguesia de Cepelos, todos os anos, a seguinte prática:

a)  Santuário de Nossa Senhora da Ouvida em Viadal.

Missa dominical em que estão patentes os oratórios de Póvoa dos Chões, Tabaçó, Viadal e Vilar.

b) Igreja Matriz, na sede da freguesia.

Missa domingal em que estão presentes os oratórios dos restantes lugares da freguesia.

5. BARCELONA E O TEMPLO EXPIATÓRIO DA SAGRADA FAMILIA.

Daquilo que conhecemos, é em Barcelona, na Catalunha, que se encontra erigido o mais imponente templo em memória da Sagrada Família.

A sua construção, iniciada em 1883, deve-se a Antoni Gaudí, arquiteto catalão, para quem a “Sagrada Família era um hino de louvor a Deus, no qual cada pedra era uma estrofe”.

Visitámos a Igreja em 2011 e ficamos maravilhados com o que vimos. Com efeito, o monumento surpreende não só pela sua grandeza, mas sobretudo pelas suas inúmeras torres – das 18 previstas, em estilo neogótico, algumas ainda estavam em construção -, mas também pelos seus vitrais e iconografia de santos católicos, nas paredes exteriores.

Tem, assim, esculpidos nas fachadas vários pórticos nomeadamente, os da: – Caridade, Fé, Esperança, Árvore da Vida, Morte dos Santos Inocentes, Adoração dos Reis e Fuga para o Egipto, entre outros.

Dada a singularidade da sua construção, escusado será dizer que o Templo Expiatório da Sagrada Família, em Barcelona, atrai todos os dias milhares de turistas, vindos de todo o mundo; pelo que todo o visitante deve ir prevenido para permanecer longo tempo em filas de espera, até que chegue a sua vez de entrar.

Domingo, 29 de Dezembro de 2019.

Manuel de Almeida

ANOTAÇÕES

(1) – Era natural de Carvalheda, filha de Maria e neta de Manuel Ferreira de Tabaçó. Tinha vários irmãos. Não deixou descendência. (in, informação dada pelo tio Júlio Quintal, cerca de 1984).

(2) – in, Agência Ecclesia.pt

(3) – Acompanha o nicho um livrinho em que se descrevem as práticas a seguir e a oração a rezar.

As duas imagens visíveis dentro do oratório devem-se a promessas das famílias do lugar.

Na Monografia de Viadal, pág. 143, fizemos já breve alusão a esta prática religiosa.

(4) – De acordo com o aviso colocado aos pés das imagens, o rendimento auferido entre 27 de Maio (?) e 23 de Julho de 1994 foi de 1.600$00 (mil e seiscentos escudos).

FOTOS
Oratório. Viadal. Ano de 1994.
Barcelona. Igreja. Ano de 2011.
Fuga para o Egipto. Ano de 2011.

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Oratório. Viadal. Ano de 1994
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Barcelona. Igreja. Ano de 2011