Curiosidades (1378-1979)

No século XIV
– O comer na Igreja de Macieira de Cambra
Como o Abade da Gândara e um poderoso séquito jejuaram

Curiosidades

A riqueza agrícola foi sempre uma constante histórica em Vale de Cambra, muito antes da ratificação administrativa, no século XV.

Pois, nesta úbere terra, um séquito de homens ilustres pretendeu um dia comer na igreja, os foros da paróquia de Santa Maria da Maceheira do então Julgado de Caãbra do Bispado de Coimbra.

Esta história real, que parece uma peripécia dos tempos de hoje, consta dos Documentos Medievais Inéditos, do Dr. A. G. Rocha Madahil e publicados no Arquivo Distrital de Aveiro.

Ultrapassando a escrita e a sintaxe do português, mais antigo do que o do cronista Fernão Lopes, um curioso incidente onde entra o comer e beber é digno de notícia.

No recuado mês de Junho (dia 21) do ano de 1416 (1378 da era actual) o poderoso Dom Abade do Mosteiro de Pedroso, no termo da cidade do Porto, acompanhado do mestre pedreiro residente no Porto, Pero Fernandes, do Prior de Macinhata, Afonso Vicente, e do Abade da Gândara, Pero Eanes, vindos de Malhuncelos, pretenderam comer na então Igreja de Santa Maria de Macieira de Cambra, tendo todavia avisado o respectivo responsável eclesiástico, o Prior Gonçalo Martins, com seis dias de antecedência.

Apressou-se logo o Prior de Macieira a informar o comilão do Dom Abade, que teria muito gosto em mandar fazer o comer pelo seu criado, o clérigo Nuno Gonçalves, ou dar o respectivo dinheiro para o festim.

– Que não queria dinheiro, mandou dizer o Dom Abade mas comer o foro e usar do seu direito de comer na Igreja.

Como o alto dignitário da Igreja teimasse, o Prior de Macieira nesse dia fechou a Igreja, ausentou-se e levou consigo as chaves, deixando para receber Sua Senhoria o criado, o referido clérigo Nuno Gonçalves.

Chegada a esfomeada caravana e encontrando fechadas as portas do templo, da casa ao passal e da quinta, o Dom Abade do Mosteiro de Pedroso bradou e bateu (sic), considerando o acto como uma grave injúria, pois além de tudo não havia também qualquer comer nem pousada onde o pudesse fazer.

Bem o Dom Abade usou de vitupérios (sic) e protestou para que lhe abrissem as portas, mas o criado, Clérigo de Macieira de Cambra, não se demoveu, até porque nem tinha as chaves.

Mudou de estratégia, o poderoso membro da Igreja.

Argumenta que queria ouvir missa pelo seu capelão que o seguia. O Abade da Gândara e o Prior de Macinhata corroboram que também queriam rezar missa.

A firmeza do subordinado do Prior de Macieira de Cambra foi constante e não acedeu abrir as portas.

Quanto à comedoria, que também não, pois Dom Pedro Tenouro, Bispo de Coimbra, dera uma sentença proibindo a Dom Abade de Pedroso de cobrar foros nesta como em qualquer outra igreja do Bispado.

O Dom Abade de Pedroso replica que desconhece tal sentença e ameaça com o recurso ao Bispo de Toledo, pois estava ali na qualidade de visitador da paróquia.

O coadjutor de Macieira, que não ficava atrás na dialéctica do Dom Abade, invocou logo que o dito Abade bem sabia dessa sentença, aliás estava arquivada no interior da igreja de Macieira negando-lhe qualquer autoridade, pois a igreja era visitada anualmente pelo Bispo de Coimbra.

Não se acomodou o Dom Abade com a derrota da sua falsa autoridade e, pior, da falta de comedoria, pelo que apelou para o Tabelião Real da vila e Julgado de Macieira de Cambra, Martim André, que passou a tarde a elaborar um extenso relatório da ocorrência, com cópias do instrumento para o Dom Abade do Mosteiro de Pedroso e para o subordinado do prior de Macieira, para ulterior apreciação eclesiástica.

Do trabalho desse oficial do Reino foi agora possível, decorridos tantos anos, conhecer esta triste disputa entre homens de Deus, mas de fraquezas humanas. [1]

Em 1514

No foral de Cambra do ano de 1514 (século XVI) referem-se os contributos que os nossos antepassados tinham que pagar ao Rei de Portugal, D. Manuel I.

A título de curiosidade, apenas alguns números:

Toda a aldeia de Paraduça pagava: setenta e oito varas, seis alqueires de centeio, três alqueires de milho, oito calaças (parte de uma aba de porco) e dois almudes de vinho cozido.

De Arões, Gonçalo Martins, genro de João Martins, pelo soveral pagava: dezoito alqueires de centeio, outro tanto de milho, dois capões dezoito reais, uma espádua de nove costais e nove quartilhos de manteiga.

João Martins, pelo casal de Cabrum pagava: sete alqueires e meio de centeio, outro tanto de milho, um gorazil (pedaço de uma pá e rabo de porco) uma calaça, (parte de uma aba de porco) nove quartilhos de vinho cozido, dois afusais de linho, um frangão e dez ovos.

Vasco Gonçalves, filho de Gonçalo, da Felgueira, pagava: de centeio quinze alqueires, outro tanto de milho, dois capões (galos), um carneiro e uma espádua de nove costais.

Gonçalo Abade, pelo casal de Melide pagava duzentos reais.

De Campo de Ança, Afonso Anes, genro de João Gonçalves, pagava: dezanove alqueires e meio de centeio, outro tanto de milho, dois capões, dezoito reais em direito e uma espádua de nove costais. [2]

Pelo menos desde o século XVI a produção de manteiga é conhecida no concelho de Vale de Cambra.

A tal evento se refere, a propósito do pagamento de rendas, num total de 29 canadas, o Foral Manuelino de 1514.

Demos já conhecimento neste volume, no artigo intitulado Em 1514, que de Arões, Gonçalo Martins, genro de João Martins, pelo soveral pagava: … nove quartilhos de manteiga.

Sabe-se também que, em 1640, todos os proprietários de vacas da freguesia de S. Pedro de Castelões de Cambra tinham incluídos nos seus foros o pagamento de meio quartilho de manteiga ou meio tostão em dinheiro por cada animal.

Mais tarde, em 1870, referia-se a Cambra e ao fabrico de manteiga o Intendente da Pecuária, António Augusto dos Santos, do seguinte modo:

Em Cambra, e mais terras que compõem o solar da família bovina arouquesa, o leite de vaca é convertido tão-somente em manteiga. Nenhum se aplica ao fabrico de queijo. É geralmente mal preparado aquele lacticínio.

A imperfeição do seu preparo deve atribuir-se, sobretudo, a má qualidade da manteiga.

Para os anos de 1876 e 1877, estima-se que de Cambra saíram anualmente cerca de 40 000 kg de manteiga, embora parte fosse produzida nos concelhos vizinhos.

A indústria de fabricação de manteiga estava quase limitada aos concelhos de Sever do Vouga, Cambra, Arouca e Paiva, sendo uma pequena parte consumida nestas localidades e a restante vendida para Aveiro Porto, Coimbra, Santarém, Lisboa e outras terras do Sul.

3 Sobre este assunto, vide Cruz, Maria da Graça Pinho da, Volume II – Transportes, Indústria e Comércio.

Manteiga Aliança

A maior exportação deste lacticínio fazia-se de Cambra, por intermédio da Estação de Estarreja (…)

Até à introdução das desnatadeiras centrífugas, eram os próprios lavradores que extraíam a manteiga pelo primitivo processo da cântara de barro e touço. 4 (…) [3]

Com a introdução das desnatadeiras centrífugas na região aveirense, em 1892, verifica-se a “iniciação industrial” no sector dos lacticínios.

Neste ano é instalada a primeira desnatadeira em Sever do Vouga.

No ano seguinte, em Sanfins do mesmo concelho, funda-se a primeira fábrica de manteiga, com fins industriais.

Tal iniciativa ficou a dever-se ao Visconde de Nandufe, a quem se atribui também a introdução das desnatadeiras centrífugas no país. 5

Em 1896, por iniciativa de um grupo de vendedores, foi instalada em Vale de Cambra a primeira fábrica destinada à produção de manteiga.

Pensa-se tratar-se da Fábrica de Lacticínios do Valle de Cambra 6 que usava, em 1908, o escudo real e produzia a manteiga da marca Alliança.7

4 Sobre este assunto, vide Cruz, Maria da Graça Pinho da, Volume II, Transportes, Indústria e Comércio.
5 Sobre este assunto, vide Cruz, Maria da Graça Pinho da, Volume II, Transportes, Indústria e Comércio.
6 Esta fábrica era, em 1903, a única fornecedora da Casa Real e a maior produtora do Reino. Possuía, em 1912, na cidade de Lisboa, Rua Nova de S. Domingos, n. 10, um estabelecimento comercial. Era sócio da firma o Sr. Manuel Tavares de Pinho [4].
7 Sobre este assunto, vide Cruz, Maria da Graça Pinho da, Volume II, Transportes, Indústria e Comércio.

Esta foi premiada, conforme consta do anúncio anterior publicado num “Jornal de Cambra”, de 1908, com a Medalha de Ouro na Exposição Agrícola de Lisboa de 1905. (…) [4]

Poucos anos depois, a regiāo de Vale de Cambra passou a ser a mais importante e especializada do País na produção de queijo e manteiga, devido essencialmente ao aperfeiçoamento das técnicas de fabrico e ao conhecimento dos mercados das primeiras unidades fabris, de entre as quais citamos a Sociedade Industrial Pinho Ferreira & Leite, fundada em 1899, a sociedade Martins & Rebello, que surge em 1901, ou a Pinho, Soares, Leite & C.ª fundadora da Fábrica de Lacticínios do Vale de Cambra.

Posteriormente, em 1943, produtores agrícolas – proprietários ou arrendatários – que possuíam gado vacum em propriedades sitas nos concelhos de Vale de Cambra, Oliveira de Azeméis, Estarreja, S. João da Madeira e nas freguesias de Chave e Rossas, do concelho de Arouca, apresentaram um documento ao Sr. Ministro da Economia Nacional da época, a solicitar a aprovação dos estatutos da Cooperativa Agrícola de Lacticínios de Rôge, constituída por instrumento de 5 de Dezembro de 1943 com a assinatura de 395 associados.

A questão dos lacticínios foi tratada, na Assembleia Nacional, no Diário das Sessões de 16, 18 e 19 de Março de 1943, e de 7 e 8 de Abril de 1943.

No I Congresso das Cimeiras Agronómicas, de 18 de Dezembro de 1943, decidiu-se definitivamente a criação das cooperativas, no voto emitido pelo congresso.

Mais uma vez foi decisiva a opinão do Professor Gincinato da Costa para que fosse aprovada a Cooperativa de Rôge – Vale de Cambra frisando o número de associados, etc.

Em 1758

A população do concelho de Macieira de Cambra, em 1758, era composta de mil cento e trinta e cinco habitantes.

Havia nesta freguesia quatro capelas: a do Senhor do Calvário, a de Santa Cruz, a de S. Bartolomeu e outra de Santo Aleixo.

Cultivava-se o milho, centeio, vinho verde e algum linho.

Não havia correio e serviam-se do da Vila da Feira aonde se iam buscar e levar as cartas ao Sábado.

Não houve estragos devido ao terramoto de 1755.

As águas eram as melhores do Reino [5].

Informação em resposta a um inquérito feito em 1771 pelo Rev. Sr. Dr. Provisor Governador do Bispado de Aveiro, a que então estava ligada a freguesia de Castelões:

O Padroeiro desta igreja de Castelões é o Senhor S. Pedro Apóstolo, está a dita igreja sita no meio desta freguesia, tem somente ao pé dela as casas da residência e as casas do rendeiro dela e outras em que vive um caseiro do Morgado de São João da Madeira;

  • não é vila, mas consta de vários lugares muito dispersos;
  • a vila é Macieira de Cambra, cabeça deste concelho, à qual esta freguesia está sujeita e todas as mais deste vale;
  • dista esta freguesia da nova cidade de Aveiro cinco para seis léguas;
  • é colativa e confina da parte nascente com a freguesia de Cepelos em distância de meia légua grande, e da parte do sul com a freguesia de Arões e com a de Silva Escura em distância de uma légua muito grande, e esta por serras, e da parte do poente com a freguesia de Ossela em distância de três quartos de légua, e da parte do norte com a freguesia de Vila Chã e com a de Macieira de Cambra em distância de um quarto de légua;
  • por dentro desta freguesia discorre um rio chamado Caima, que discorre do nascente para o poente e uma estrada que a atravessa pelo meio da freguesia, da parte do sul para o norte, que vem da cidade de Viseu e S. Pedro do Sul e todas essas partes para a cidade do Porto.
  • O pároco da freguesia é colado, intitula-se reitor da paroquial igreja de S. Pedro de Castelões de Cambra é apresentado pelo Il.mo e Rev.mo Cabido da Sé de Coimbra que da dita igreja não tem mais que a regalia de a apresentar e, pela morte do reitor, uma peça de casa do mesmo reitor, a que chamam Lutuosa, o reitor não percebe da dita igreja dízimos alguns e só tem uma simples côngrua;
  • os dízimos desta dita igreja pertencem ao Exmo. Comendador dela, que é o Exmo. Marquês do Lavradio, que as traz arrendadas cada ano em preço e quantia certa de novecentos mil réis e doze arrobas de presuntos, postos em sua casa, na cidade de Lisboa, à custa do mesmo rendeiro e cinquenta varas de pano de linho do mais sólido e uma toalha de mesa com seus guardanapos;
  • paga também o rendeiro, além do exposto, as propinas pertencentes à igreja que são: ao reitor a côngrua certa de quarenta mil réis, e quatro alqueires de trigo para as hóstias, e oito almudes de vinho mosto para as missas, e mil e duzentos réis para a lavagem de roupa; e dá mais a cera para as missas do dia dos domingos e dias santos e para se dar a Sagrada Comunhão, e círio pascal e serpentina – que importa esta cera, uns anos por outros, em quinze mil réis; e dá mais um arrátel de incenso, mais quinze mil réis em dinheiro para os paramentos da igreja e ornato dos altares, reparo da capela-mor e sacristia, e, se estas caírem, tem o Ex.mo Comendador obrigação de as mandar reedificar à sua custa… [6]

Documento de 1852

António Gaspar da Cunha Araújo Sardinha, Fidalgo Cavaleiro da Casa de Sua Majestade Fidelíssima,

Declaro que recebi do Snr. Joaquim José de Bastos, da Quinta do Outeiro de Castelões de Cambra, por mão do Snr. Manuel Gomes de Almeida, a quantia de oitenta e um mil e quinhentos e vinte e cinco réis que me pertencia do foro vencido da Quinta do Outeiro de Castelões de Cambra, vencido em Agosto de 1851.

E por ser verdadeiro passei o recibo.

Lisboa, 19 de Abril de 1852

a) António Gaspar da Cunha Araújo Sardinha [7].

Em 1855

António Soares Leite Ferraz d’Albergaria, 8 como administrador do concelho de Macieira de Cambra, nomeou João Moreira, Cabo de Polícia, na Freguesia de Castelões, conforme documento seguinte.

Nomeação

8 António Soares Leite Ferraz d’Albergaria foi Barão de Areias de Cambra e este título foi-lhe concedido por D. Luís I, pelo facto de ter exercido honrosamente durante três anos consecutivos, o cargo de administrador do concelho de Macieira de Cambra.

O concelho por volta de 1860

De um relatório apresentado pelo Governador Civil à Junta Geral do Distrito de Aveiro, em 20 de Julho de 1855, sobressai que:

a) O ano agrícola foi mau sobretudo em milho e batata, a que se aliou uma epidemia de cólera-morbes. Esta não teve porém consequências de maior nos concelhos da serra;

b) A divisão territorial para efeitos de administração das justiças não agradava aos de Cambra pois que estes instam pela desanexação deste julgado da Comarca de Arouca e quaisquer que sejam as razões de conveniência que ditaram essa anexação é forçoso confessar que ela é muito prejudicial;

c) Os baldios estão subaproveitados e como tal, deve ser feita a sua partilha;

d) Os pais só mandam os filhos à escola no Inveno pois que, no Verão, por a acharem desnecessária, aproveitam-nos nos trabalhos agrícolas.

Informa ainda do movimento de professores em várias escolas, transferindo a cadeira de Villa-Cova, Freguezia de Junqueira (…) para o logar de Merlães, Freguezia de Cepellos

e) Os miúdos expostos (abandonados) deveriam ser muitos, uma vez que pedem-se providências para a sua protecção.

9 Conforme referido por Américo Costa, em 1939, e para efeitos da administração das justiças, Cambra pertencia à Comarca de Estarreja e em 1852 à de Arouca.

Foi, no entanto, desanexada de Arouca em 1856, passando, até 1978, a pertencer à de Oliveira de Azeméis.

Em 1978 foi criada a Comarca de Vale de Cambra, pelo Decreto-Lei n. 289/78, de 1 de Setembro.

Em 1862 havia no concelho 10.633 habitantes e 2392 fogos, sendo que a Câmara tinha a seguinte composição:

Tomaz António Fernandes (Presidente), José Joaquim Soares Homem (Vice-Presidente) Francisco Tavares de Pinho Manuel Joaquim de Matos e João Barbosa – Vereadores.

É ainda neste ano que se pede, em carta dirigida, em 5 de Maio, ao rei, que a estrada de Oliveira de Azeméis a Arouca passe por Cambra, via Baralhas [8].

População do concelho de Macieira de Cambra – 1877

A população do concelho de Macieira de Cambra, em 1877, era composta de 10.080 habitantes.

A população do concelho registou a seguinte evolução:
em 1880, 11.351 habitantes;
em 1900, 12184;
em 1911, 13. 287;
em 1920, 13.827;
em 1930 (já concelho de Vale de Cambra) 14.769;
em 1950, 19.193 e
em 15 de Dezembro de 1960, 20.444 habitantes. [9]

O que aconteceu em Macieira de Cambra em 1898

José António Martins

28 de Setembro de 1898 – Chegou ontem a esta vila, vindo do Rio de Janeiro, onde é importante comerciante, o conhecido benemérito Sr. José António Martins, acompanhado de sua dedicada família.

A recepção que os habitantes deste concelho lhe tributaram, especialmente os de Coelhosa, freguesia de Castelões, foi importante.

Uma grande multidão seguida duma filarmónica, foi ao encontro daquele prezado conterrâneo, à entrada da vila, acompanhando-o até à sua residência, no meio dum entusiasmo indescritível.

Durante o trajecto subiram ao ar girândolas de foguetes.

Um grande número de camponesas espalharam sobre os carros das comitivas muitas flores.

Em honra deste prestigioso cambrense foi oferecido um banquete na Quinta de Coelhosa, com a assistência de 60 convivas, o qual foi abrilhantado por duas filarmónicas.

Abundância de vinho

As vindimas continuam a ser feitas com regularidade.

Os agricultores estão muito satisfeitos com o grande rendimento de vinho – muitos que pensavam ter 10 pipas tiveram 15.

A falta de vasilhame tem-se feito sentir. Pipas e tonéis que há muitos anos não eram servidos, estão a ser preparados e outros vasilhames estão a fazer-se em grande quantidade.

As poucas transacções que se fazem são aos preços de 850 réis e 900 réis por cada medida de 28 litros.

Os vinhos verdes desta região que rivalizam com os melhores do país, têm uma boa clientela no Ultramar Português e no Brasil.

A casa Coelho & Martins, do Rio de Janeiro, cujos proprietários são cambrenses, é a maior consumidora deste concelho.

Abundância de milho

A colheita de milho promete ser abundante.

O preço deste cereal tem regulado desde 640 réis e 700 réis por cada medida de 20 litros.

Espera-se que baixe de preço logo que se principie a colher o milho das terras lentas [10].

No final do século XIX

No final do século XIX compravam-se 24 caixas de fósforos por um vintém, um maço de cigarros custava um vintém, a meia canada que é o mesmo litro de hoje, o milho a cinco tostões o alqueire, o maior ordenado dos trabalhadores do campo era um tostão, os artistas 2 tostões, um Sr. Padre rezava uma missa por 12 vinténs, a consulta de médico com ida a casa em Junqueira era 2 mil réis, que correspondia a 2 escudos.

Uma camisa de linho custava 3 vinténs e um fato um tostão a 6 vinténs.

Uma vaca das melhores custava 7 moedas e as mais baratas 15 a 20 mil réis, uma vitela 2 a 4 mil réis.

O leite das vacas era a riqueza dos lavradores.

Junto nuns cântaros até levedar, era depois amassado ou corrido a pau para dar a manteiga que era vendida por um dinheiro ou 2 tostões o quilo ou 2 arráteis…

O lombo dos suínos era vendido a 2 tostões o quilo e os leitões dos melhores para o ano seguinte custavam 2 mil réis.. [11]

Em 1903

Vai ser inaugurada brevemente, uma fábrica de lanifícios. Os seus quatro proprietários merecem os melhores elogios pela sua iniciativa.

O engenheiro civil Sr. Emídio Amaral foi encarregado de elaborar o projecto de chafariz que se pretende construir na vila de Macieira de Cambra.

O Rev. Padre Joaquim Coutinho mandou proceder à exploração das águas do monte do Calvário, que vão ser encanadas.

Fez exame do 2° ano de Teologia, no Seminário do Porto, o Sr. Luís Correia Vaz de Aguiar.

Tambénm concluiu o 3.° ano de Teologia, na Universidade de Coimbra, o Sr. Domingos de Almeida Brandão.

Em 1909

5 de Agosto de 1909 – O Rev. Domingos Fernandes Nogueira, prior da Lapa (Lisboa), ofereceu a Arões, freguesia onde nasceu – um pálio, duas lanternas e uma cruz.

Estas alfaias religiosas foram usadas pela primeira vez na festa em honra do Santíssimo Sacramento. [9]

É instalado o primeiro animatógrafo, chamado Animatógrafo Cruz. Exibiu a Vida de Cristo.

É aberta uma farmácia no lugar de Santa Cruz.

Panfleto

“Panfleto” distribuído numa campanha para eleições às Cortes Gerais, campanha em que, como se depreende, os militares locais dos maiores partidos monárquicos – o Regenerador e o Progressista – se uniram.

De notar o recurso a alcunhas (para melhor atrairem a atenção dos eleitores) e uma prosa empolada, mas acessível:

Cambrenses!!

Ainda é tempo de salvardes a vossa dignidade!

Ainda é tempo de elegerdes um filho da vossa terra que dignamente vos vá representar nas côrtes geraes.

Esse filho é o Ex.mo Sr. Morgado de Santa Cruz, esse portento que tantas vezes já tem cantado o nosso concelho em bellas e maviosas trovas.

Em tudo e por tudo tem elle manifestado o seu carácter, o seu cavalheirismo e a sua abnegação.

Como presidente da Câmara foi exemplaríssimo e correcto no desempenho d’esse elevado cargo e se o elegerdes, elle nas camaras saberá sempre pugnar por este concelho.

Elle que sabe as nossas necessidades saberá também dar-lhes remedio.

Portanto cambrenses votae todos no Ex.mo Sr. Morgado, porque assim mostrareis o quanto sois gratos aquelles que trabalham pelo engrandecimento da vossa mãe-pátria.

À urna, pois, pelo Ex.mo Sr. Morgado!

À urna por um filho das terras de Santa Cruz!!

Prior de Macieira (o Casaca de Ferro) 
Manuel Cortés Vaz d'Aguiar (o Terra) 
Dr. António Corrêa do Amaral (o Caspa) 
José Pereira Dias (o Tyrano) 
Dr. Augusto Corrêa do Amaral (o Lyrio Pendente) 
P. Joaquim Manuel Tavares (o Festas)

Observações:

o Prior de Macieira de seu nome Joaquim Tavares de Oliveira Coutinho, natural de Cabril, padrinho e tio-avô de pessoa que conhecemos com igual nome, era o chefe do partido progressista em Terras de Cambra.

Foi nomeado conselheiro do rei, honraia que não quis aceitar pois, certamente, teria de sujeitar-se ao pagamento dos chamados “direitos de mercê”.

Era um político circunspecto e hábil. Insubmisso, porém não arrogante, exibia uma “impassibilidade” impressionante perante os fortes ataques dos seus adversários e daí lhe adveio a alcunha.

“O mudo de Areias”, uma figura popular muito conhecida nesta terra imitava-o no seu andar em jeito de passeio, com o rosto ligeiramente à banda, uma das mãos na lapela do paletó e ar cativante quando andava à busca de “votos”.

Destacadas pessoas das distintas Famílias Aguiar e Amaral, de Macieira, tinham as suas alcunhas em razão de particularidades – aliás não deslustrosas – da sua vivência.

José Pereira Dias, de Junqueira, era um professor primário com muita cotação quer no Concelho quer fora dele e até a nível superior.

Buscava “eficiência” no ensino e respeito integral” dentro da escola, através da dureza, à semelhança do seu colega e amigo, Tomaz Coutinho, de Castelões; e daí a alcunha de tirano certamente provinda dos pais dos alunos que teriam chegado a casa com as orelhas e as palmas das mãos algo maltratadas.

Ambos foram aconselhados pelo inspector escolar a uma certa calma, mas justificariam que em razão de terem a escola cheia e de ministrarem as 4 classes (!) a paciência lhes escasseava perante tal esforço.

Reverendo Padre Joaquim Manuel Tavares, de Cabril, mais tarde prior de Castelões, era um político vigoroso, militante do partido regenerador.

Em épocas de luta eleitoral recorria a foguetes e a festas, na sequência do que fazia fora das lutas eleitorais; e daí a alcunha também não deslustrosa… [12].

Em 1926

5 O concelho muda de nome e de localidade, pelo Decreto n. 12976, de 31 de Dezembro de 1926.

Em 1929

O edifício dos Paços do Concelho foi construído a expensas da Junta de Freguesia de Vila Chã, subsidiado pela Câmara Municipal e algumas individualidades particulares, sendo notável a oferta de 6000$00 que o capitalista, e à data vereador da Câmara Municipal, Sr. Domingos Tavares Correia, do lugar de Areias, ofereceu para auxílio da construção do novo edifício, não chegando a fazer entrega da oferta, por falecer, mas sendo porém o compromisso respeitado pelos seus herdeiros.

Um pinheiro com 1,5 metros de diâmetro foi suficiente para a construção dos Paços do Concelho, em 1929.

Este pinheiro foi proveniente do lugar do Pinheiro Manso e esteve na origem do seu nome.

Em 1931

O analfatbetismo ronda os 70%.

Em 1935

5 A Central Hidroeléctrica do Caima, Lda. procedeu à instalação da luz eléctrica no lugar da Gandra, inicialmente através de um dínamo da fábrica Almeida & Freitas. 10

Em 1941

O custo de vida aumenta e os preços tabelados são:

1 kg de bacalhau: 8$10 a 9$20;
1 kg de açúcar: 4$20 a 4$50;
1 kg de arroz: 2$30 a 3$60;
1 kg de milho: $70;
1 kg de carne limpa de porco: 14$00;
1 kg de batata grande: $70.

Em 1942

Inicia-se o funcionamento de um colégio privado em Vale de Cambra e um trabalhador ganha entre 10$00 a 12$00 por dia.

(…) O local onde se levanta a progressiva vila de Vale de Cambra ainda há poucos anos era um largo, mal terraplanado, arborizado e com algumas barracas para venda de artigos em dias de feira tendo pelos lados algumas pequenas casas.

Hoje tem amplas ruas, largas avenidas, bons edifícios, muito comércio e indústria.

Vale de Cambra também tem:

Um bom edifício dos Paços do Concelho, onde estão instaladas todas as reparticões públicas do Estado e Câmara Municipal: em uma das dependências do edifício, funciona a Estação dos Correios, Telégrafos e Telefones com serviço de vales declarados, encomendas postais, cobrança de títulos, letras e vales.

O serviço da distribuição postal é feito duas vezes ao dia; o telefónico tem duas cabinas públicas e prolonga-se até à meia-noite.

É chefe da estação o zeloso funcionário, Sr. Evaristo de Almeida.

O mercado semanal realiza-se ao Domingo, em edifício fechado; as feiras são nos dias 9 e 23 de cada mês e quando estas coincidem com o Domingo, fazem-se no dia seguinte.

Tem uma escola com três salões, funcionando alternativamente quatro aulas ao dia (…)

Tem capela onde há missa aos Domingos e dias santos; uma Banda de Música das melhores do Distrito; núcleo da Legião Portuguesa bem organizado e uma Associação Desportiva com bom campo de jogos.

Funcionam na Vila: um posto da Guarda Nacional Republicana; Delegação da J. A. das Estradas tendo como chefe de conservação o Sr. António Robalo Lopes; Notariado Público, com o Sr. Amaro Ferreia Landureza, Central dos Caminhos de Ferro do Vale do Vouga, Delegação da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes e em organização uma corporação de Bombeiros Voluntários.

É iluminada a luz eléctrica, abastecida com água potável, e está ligada às freguesias por estradas, excepto à de Vila Cova de Perrinho que é servida por um mau caminho.

As numerosas carreiras de camionetas que diariamente saem de Vale de Cambra põem este concelho em comunicação com os principais centros urbanos.

O descanso semanal, tanto na sede do Concelho como nas suas freguesias, não tem por enquanto dia marcado; o Feriado Municipal, atendendo à grande romagem de Nossa Senhora da Saúde da Serra é no dia 14 de Agosto. [13]

Em 1942

Augusto Tavares da Silva, depois de aturado estudo, conseguiu honrar o país com quatro inventos dignos de louvor, sendo propriedade sua as patentes n. 17.053 – 19.338 – 19.370 e 20.157, todas referentes a fechaduras invioláveis.

A patente n. 17.053 é de uma fechadura luminosa e de segredo, podendo funcionar sem necessidade de luz.

A patente n. 19.338 é referente a uma fechadura desegredo inviolável.

A patente n. 19.370 é de uma fechadura de segredo sem lingueta; o punho do trinco é o único dispositivo para abrir e fechar.

A patente n. 20.157 refere-se a uma fechadura de segredo com trinco e canhão que permite utilizar uma só lingueta com fecho e trinco ao mesmo tempo, podendo também funcionar 2 carmon de segurança. [13]

O que é o dinheiro?

Joaquim José de Pinho da Cruz (pai), lavrador do Cimo d’Aldeia, faz uma recolha de alguns dos nomes que o nosso povo dá ao dinheiro:

Com que se compram os melões, o vil metal, o bago, o pastel, o tusto, o trocadinho, o numerário, o painço, o papel, o el contado, o imão do ouro, o guito, o pilim, o graveto, o milho, o capim, o pingo, o capital, o cabedal, o arame, o caroço, o pastelão, a guita, a mainça, a verba, a coma, a chilpa, a mola-real, a tosta, a tusta, a maquia, a fortuna, a maçaroca, a riqueza, a pasta, a tinta, a massa, a cheta, os trocadinhos, os dinheiros, os palhaços, os teres e os haveres, os trocos, os bejiguins, os carcanhóis, os cobres, os trocados, os manguços, os paus, os moleques, os macacos, os barrotes, os mangos, os gansos, as lecas, as lercas, as caretas, as pilecas, as tecas, as notas, as patelas, as tíbias, as coroas, as moelas, as patacas.

Em 1949

A 6 de Agosto, a povoação de Vila Cova de Perrinho é desanexada da freguesia de Codal para se constituir em freguesia.

No início dos anos 50

Mercado Municipal – Dentro do edifício, nos dias 9 e 23 havia de tudo: novidades agrícolas, ferramentas, tecidos, mercearia e joalharia.

No início dos anos 50, o Mercado Municipal foi utilizado como Feira Popular durante um mês inteiro.

Cada entrada custava dez tostões.

De entre as atracções são de destacar:

boxe, ranchos folclóricos, incluindo o Rancho Infantil de Vale de Cambra, orientado pelo Sr. Umbelino Fuste 11 e o ensaiador era oriundo de Cesar [14].

10 Informação fornecida pelo Sr. António Moreira de Almeida
11 A profissão do Sr. Fuste era consertar e alugar bicicletas.

Em 1951

É aberto concurso público para a construção do jardim de Vale de Cambra. A sua inauguração dá-se em 1953.

Em 1952

A Santa Casa da Misericódia inicia a sua actividade.

Em 1956

Começa a captação de água de nascente em Decide, para abastecer a então vila. Só chega em 1962.

Em 1959

Começa a laborar a fábrica Vicaima.

Em 1961

Tomba em combate, nos muceques de Luanda, o primeiro soldado oriundo das terras de Cambra.

As relíquias do Beato Nun’Álvares Pereira visitam o concelho.

Em 1965

Começa a laborar a fábrica Colep.

Em 1966

É autorizada a primeira Agência Bancária para a então vila. Trata-se do Banco Pinto de Magalhães.

É criado o primeiro Posto Médico dos Serviços Médico-Sociais.

Em 1967

É criado um Curso Unificado de Telescola (até ao 2.° Ano) em Vale de Cambra. É pedida uma Escola Técnica.

Em 1968

Cria-se a Escola Preparatória.

Começa a laborar a Arsopi.

Em 1969

Inaugura-se uma Biblioteca Municipal da Fundação Calouste Gulbenkian.

Em 1970

Inaugura-se o Cinema/Casa de espectáculos.

Cria-se a Escola Técnica.

Em 1973

Cria-se a Conservatória do Registo Predial e Comercial de Vale de Cambra.

Cria-se um Liceu.

Em 1978

É criado, juntamente com outros, o Tribunal de Vale de Cambra, pelo Decreto-Lei n. 450/78, de 30 de Dezembro, mas só inaugurado em meados de 1980.

Em 1979

Realiza-se em Vale de Cambra a primeira Feira Comercial, Industrial e Agrícola do concelho – Lacti 79.

[1] Mesquita, António, in A Voz da Terra, Ano I, n. 1, de 31 de Outubro de1987
[2] Mesquita, António, in A Voz da Montanha, de Arões, Ano XVII, n. 11, de Dezembro de 1989.
[3] In artigo de Ralo, José A. Carilho, publicado no Arquivo Distrital de Aveiro, volumes XVIII e XIX, anos de 1952 e 1953, intitulado A Evolução da Indústria de Lacticínios, no Distrito de Aveiro, desde o seu aparecimento e até 1953.
[4] In A Voz de Cambra, Ano XXI, n. 516, de 15 de Outubro de 1992.
[5] Partes retiradas de texto da autoria de Manuel de Melo e copiado do original por Artur Ferreira Leite em Sta. Joana, Aveiro, 19.10.1998.
[6] In A Voz de Cambra, Ano XXII, n. 509, de 15 de Junho de 1992.
[7] In A Voz de Cambra, Ano XlIl, n. 318, de 15 de Abril de 1984.
[8] Almeida, Manuel, in A Voz de Cambra, Ano XX, n. 479, de 1 de Março de 1991.[9] In A Voz de Cambra, Ano XIl, n. 305, de 1 de Outubro de 1983.
[10] In A Voz de Cambra, Ano Xll, n. 307, de 1 de Novembro de 1983.
[11] Pereira, Albino Filipe, in A Voz de Cambra, Ano XXV, n. 580, de 15 de Julho de 1995.
[12] In A Voz de Cambra, Ano XVII, n. 393, de 15 de Junho de 1987
[13] Ferreira, António Martins, Vale de Cambra, 1942.
[14] In A Voz de Cambra, Ano XVI, n 656, de 1 de Novembro de 1998.