A festa do linho

A festa do linho

por Artur Jorge Almeida

Dos ciclos produtivos de actividades artesanais, o ciclo do linho, pela sua complexidade, reveste-se de um inegável interesse.

A ele estão ligados muitos dos momentos importantes da vida, nomeadamente da mulher, visto que grande parte do ciclo é efectuado pela mulher.

O linho, como elemento fundamental para a constituição do enxoval, é de uma importância enorme para a rapariga casadoira. A rapariga prendada orgulha-se da riqueza do seu enxoval.

O linho acompanha o homem desde o seu nascimento, até à morte.

O ciclo do linho é, por assim dizer, um ciclo de obtenção de um produto que vai acompanhar outro ciclo: o ciclo de vida do homem.

Ao ciclo do linho estão associados diversos ritos de fertilidade.

O casal abraçado que se rebola sobre o linhal, as “tombadelas”, “caidelas” ou “camisadas”, que ocorrem em Portugal e na Galiza, mais não são que um ritual de fertilidade.

O linho está associado a um certo erotismo.

Os próprios instrumentos, a roca e o fuso, lembram a dicotomia entre o masculino e o feminino, o eterno par que se completa: “Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso“.

A roca é um atributo feminino. Desde a antiguidade que a mulher aparece representada com a roca.

Os bailaricos começavam logo nas arrancadas e, ao longo das diversas fases dos trabalhos do linho, sucediam-se os divertimentos.

Os trabalhos do linho são o pretexto para a “socialização” para o convívio, para o comunitarismo. Mas, também, para o namoro.

Rapazes e raparigas aproveitam para se conhecerem melhor, para apreciarem as qualidades mútuas.

Servem para ver quais as raparigas mais prendadas e trabalhadeiras, sustentáculo de um lar onde a organização e a economia doméstica são incumbência da mulher.

Como servem, também, para ver quais os rapazes mais trabalhadores, pois a força do trabalho é primordial numa agricultura como a da região.

Esta preocupação está patente nos provérbios:

  • Mulher palradeira, fraca fiadeira
  • Mulher que muito se mira, pouco fia
  • A fiar e a tecer ganha a mulher de comer
  • Fias e teces, o lar enriqueces
  • Quem ara e fia, ouro cria,
  • – este último com uma interessante variação: “Quem lavra e cria, oiro fia”.

As arrancadas eram acompanhadas de danças. Também nas espadeladas se faziam bailes.

Os rapazes traziam viola, cavaquinho e harmónio.

As raparigas traziam maçãs no fundo do cortiço, e os rapazes davam flores a cheirar às raparigas.

Cirandeiro d’ontem à noite
Dai um saltinho à eira
Vinde buscar as maçãs
Que vos trago na algibeira.

A rosa da Alexandria
Onde perdeste o cheiro?
Perdi-o na tua cama
Na renda do travesseiro.

Havia todo um ritual de cortejar. Também, havia muita malícia envolvida. Os mais audazes tentavam arranjar subterfúgios para aproveitar a situação.

Durante as arrancadas do linho, os homens mais traiçoeiros, vinham por trás das mulheres, travavam-lhes as saias e davam tombos sucessivos com elas.

Os serões onde rapazes e raparigas se encontravam eram propícios a desmandos. A Igreja tentava pôr cobro a estas situações.

São conhecidos vários textos do século XVIII, onde se procurava, por vezes com severas penas pecuniárias, proibir ajuntamentos de rapazes e raparigas, nomeadamente, quando ocorridos de noite.

Também, nas visitações paroquiais, estas situações são, muitas vezes, referidas. Contudo, não foram suficientes para acabar com estes momentos de diversão, tão do agrado das classes populares.

Aliás, a brejeirice imperava tanto da parte dos rapazes como da das raparigas, sendo as cantigas, muitas vezes, algo picantes, onde o cantar ao desafio aguçava a euforia dos circunstantes e quanto mais acicatados os cantores maior alegria e brejeirice se alcançavam.

Era um ambiente de festa, onde comida e vinho, danças e cantares, proporcionavam um convívio entre vizinhos, uma forma de agradecimento pela ajuda, um enaltecimento do espirito de entreajuda e de boa vizinhança, o comunitarismo dos trabalhos agrícolas, o canto e a música, durante a execução dos trabalhos, têm uma dupla função, servem, simultaneamente, para proporcionar uma maior alegria a trabalhos repetitivos e para permitir um ritmo constante, donde resulta um maior rendimento.

Enquanto as mulheres e raparigas procediam à arrancada, na eira os homens, muitas vezes auxiliados por mulheres, ripavam o linho.

As brincadeiras eram uma constante.

Uma bandeira era colocada no campo pelas arrancadeiras, outra na eira, pelos ripadores, sempre bem guardadas para evitar que a parte contrária a roubasse.

Estas brincadeiras, nem sempre eram vistas com bons olhos pelos mais sisudos e avarentos.

Casas havia onde não se faziam espadeladas por se considerar que era maior o prejuízo que o lucro. Pois, no entender destes, as brincadeiras conduziam à perda de matéria-prima, quando se levantavam levavam tomentos às pernas, que era grande a balbúrdia.

Felizmente não era esta a opinião geral e o trabalho do linho tornava-se numa grande festa: a festa da fartura, a festa da alegria, a grande festa do linho.