Escultura a Ferreira de Castro

Escultura

por Voz de Cambra

Escultura A Selva

Ferreira de Castro foi homenageado em Vale de Cambra, assinalando os 100 anos da sua vida literária com a inauguração de uma escultura sobre “A Selva”, a obra do escritor, natural de Ossela, que apelidou este concelho de “Suíça portuguesa“.

A peça da autoria de Vítor Ferreira, professor e responsável pelo departamento de artes do Agrupamento de Escolas do Búzio foi escolhida entre quatro propostas, tendo a seleção recaído sobre a obra agora patente no Parque da Cidade.

Inauguração

Dadas as suas dimensões e especificidades de natureza técnica, o aço corten foi adquirido pelo Agrupamento tendo o seu corte sido efetuado na empresa valecambrense Marsilinox, Lda.

Os trabalhos de soldadura ficaram a cargo do Curso de Mecânica e dos seus colaboradores mais próximos.

Inicialmente projetada para exposição no espaço do Agrupamento de Escolas do Búzio, o local final da sua colocação foi o Parque da Cidade Dr. Eduardo Coelho, por vontade da Câmara Municipal de Vale de Cambra, numa parceria estabelecida entre todas as partes envolvidas: Câmara Municipal, Agrupamento e autor.

Do aço e das palavras nasceu esta escultura

A obra

No seu discurso de apresentação da obra, Vítor Ferreira explicou como nasceu e foi criada esta escultura e sublinhou ainda o ‘humanismo” de Ferreira de Castro.

100 anos separam a estreia literária de um dos mais reconhecidos autores da língua portuguesa è a escultura “A Selva”.

100 anos entre o universo humanista aberto pelas palavras de Ferreira de Castro e o aço e a madeira erigidos em sua memória por Vítor Ferreira.

“Contrapondo à beleza do parque Dr. Eduardo Coelho as generosas medidas de quatro metros de altura por 1,10 metros de largura e dois de profundidade, “A Selva” exibe ao centro, por entre duas imponentes colunas de aço corten, um tronco de madeira que transporta os nossos olhar e imaginário para os contornos de um tronco humano de braços
abertos, numa dinâmica de movimento onde adivinhámos uma insanável luta e a consequente ânsia de libertação”, explica o autor da obra Vítor Ferreira referiu-se à vida de Ferreira de Castro e à precoce partida do autor da sua terra natal, Ossela para um mundo totalmente desconhecido, onde a vida lhe reservou “momentos de grande dureza” e onde Ferreira de Castro “testemunhou com todo o seu corpo as agruras da condição humana”.

Uma árvore representa a beleza, um conjunto de árvores, como o da Amazónia, representa o inferno“, afirmou o artista plástico, salientando que a presença do tronco como elemento central da escultura se deveu à paixão que o escritor tinha pelas árvores e pelo choque existencial que teve que sofrer em tenra idade no contexto da selva amazónica.

Num olhar atento ao tronco, são ainda evidentes dois profundos cortes feitos na diagonal, que representam, segundo o autor, “não só da atividade seringueira patente no livro “A Selva”, mas também dos golpes infligidos à própria condição humana, que o escritor tão profundamente vivenciou e descreveu”.

Simbólica e intencionalmente voltada de costas para Ossela, terra nativa de Ferreira de Castro, “A Selva” evoca ainda a temática “da partida, da emigração, da saída da denominada “zona de conforto” para um mundo que se espera de esperança, de renovação de sonhos, de tentativa de conquista”, recorda Vítor Ferreira.

Esta temática repete-se igualmente na curvatura que as duas colunas de aço fazem no seu terço superior, deixando transparecer não só a “fronteira” em que a figura humana do tronco se parece continuamente debater, mas também as curvas do Rio Madeira, que no livro “A Selva” assumem para Ferreira de Castro o único ponto possível de fuga ao inferno amazónico o autor lembra ao jornal A Voz de Cambra que esta “carga simbólica e dinâmica de movimentos” que a escultura “A Selva” deixa entrever tornam-na “uma obra de grande tensão, abrindo os seus multifacetados elementos um espaço sensorial onde, à semelhança do livro de Ferreira de Castro, se cruzam e debatem algumas das grandes questões da vida humana: liberdade, superação, sonho, abandono, luta, emancipação, humanismo”.

Esta escultura assenta, no seu fundo, numa placa em aço de dois metros por um metro, que são precisamente as dimensões de uma campa, “morada última do homem”, refere.

“A presença da morte, sentida em todas as páginas do livro A Selva” como uma asfixia imobilizadora da ação, encontra igualmente na escultura um incontornável paralelismo, conferindo-lhe um dramatismo ímpar, que reforça com solenidade o sentido da minha homenagem ao escritor”, explica o artista plástico valecambrense.

Merecida homenagem ao escritor

Inauguração

Nesta cerimónia de inauguração, que decorreu no Parque da Cidade, o presidente da Câmara Municipal de Vale de Cambra, aproveitou para saudar a iniciativa, para felicitar Vítor Ferreira e o Agrupamento de Escolas de Búzio pela apresentação da obra e para reforçar a importância do papel das parcerias institucionais levadas a cabo no contexto municipal.

José Pinheiro referenciou a relação de forte empatia que Ferreira de Castro sempre manteve com Vale de Cambra e com os valecambrenses, referindo-se à escultura “A Selva” como uma merecida homenagem ao escritor e um reforçar de laços com uma figura ímpar da literatura portuguesa.

“Com a colocação da escultura no contexto do Parque da Cidade, inaugura-se um espaço de um escritor muito querido em Vale de Cambra, que de hoje em diante reforça a sua importância para os valecambrenses e para todos os que nos visitem”, referiu.

O autarca disse ainda que a Câmara Municipal se encontra a trabalhar num conjunto de projetos que possam firmar aquele espaço onde se encontra a escultura como uma área de leitura, de debate e de outras iniciativas que tenham por referência não só o escritor Ferreira de Castro mas a literatura e as artes em si.

O presidente do Conselho Diretivo do Agrupamento de Escolas do Búzio, lembrou ali para um público na sua maioria de jovens daquela escola, o contexto do aparecimento da obra. Pedro Martins explicou que o aparecimento da obra se deve a um desafio do Gabinete de Coordenação de Projectos / Centro de Estudos Ferreira de Castro, inserido nas Comemorações dos 100 Anos da Vida Literária de Ferreira de Castro, ocorrido em 2016.

O desafio foi lançado ao Curso Técnico-Profissional de Design, na pessoa do seu coordenador, Vítor Ferreira, que posteriormente veio a envolver o Curso de Mecânica.

Aproveitou ainda para agradecer a todos os que tornaram possível a concretização da escultura, nomeadamente Vítor Ferreira, Câmara Municipal de Vale de Cambra e Marsilinox, Lda.